Morro sem ter experimentado o Amor.
Por que o Amor verdadeiro triunfa,
enquanto o meu morreu.
Morro por que vida pressupõe morte
e toda morte é vã;
toda morte é a derrota das virtudes.
Morte da força do indivíduo -
extinção dos sonhos, encerramento das obras
Morro, afinal, pela impossibilidade de triunfo
Em memória de mim,
Será que dói?
(A cidade continua - chuva, buzinas e fumaça)
Essa foi a única coisa sincera que escrevi em toda a minha vida. Sinceridade, agora eu sei, só é possível com sangue. Qualquer palavra se perde quando reduzida a um composto de carbono e alcatrão, prensado contra a celulóide por pistões de metal frio. Desumanemente frio.
Nenhuma palavra jamais teve chance de sobreviver a viagem tão ingrata Tenho agora consciência de que nunca escrevi uma linha se quer que fosse verdadeira usando falsa matéria prima. A falsidade é o componente principal das tintas industriais. Só com sangue, só com sangue é possível escrever algo sincero. E no fim, é o que restará de mim quando a tempestade passar e encontrarem um corpo pendurado.
(Um nó górdio é a solução. Um nó para desemaranhar os problemas da vida.Uum nó sustentando um indivíduo que vira um corpo, que vira cinzas, que vira nada)
Será que tenho coragem?
(A resposta é um nó)
É só respirar fundo.
(A cidade continua - chuva, buzinas, fumaça... campainha)
- Já vou!
Eu quero morrer, a cidade não deixa. Acertar a forca no lustre. Pronto? Encarar o Enfadonho que bate a porta na hora da morte.
- Quem é?
(Sirenes batem a porta. Um chapéu, um sobretudo e um distintivo. A chuva engoliu essa pessoa- pingos e gotas - seus pés trazem a lama de toda cidade)
- Cowboy? Abra a porta, sou eu, Dias, Detetive Dias. Preciso falar com você.
(Um rosto amigo)
Trinco. Chave. Maçaneta.
- O que veio fazer aqui? Não vai passar o ano com nossa amiga?
- Vim pedir desculpas.
- Cadê ela?
- Vamos, Cowboy, é sério, estou me desculpando.
- Cadê ela?
- O que é aquilo?
É a forca pendurada no lustre.
- É um varal pendurado no lustre. Estava chovendo na varanda.
- Você está bem, Cowboy?
- Cadê ela?
- Ela me trocou pelo velho. Ligue a TV no onze.
(Uma antena escura. Ondas eletromagnéticas. Cruzando o céu da cidade sem se incomodar com a chuva ou poluição. Para os homens, contudo, a chuva e poluição ainda reinam soberanas)
(Raios eletromagnéticos percorrem a cidade. Saem de uma antena escura e atravessam os céus sem se incomodar com a chuva ou com a poluição. Para os homens, contudo, hoje mais do que nunca, a chuva e a poluição reinam soberanas devorando casas e almas)
- Ali está ela, está vendo? Com o velho. Passando o reveillon numa cobertura na avenida Central. Na cobertura dele...
(Em outra parte, raios incineram lares e destroem histórias. Famílias não são poupadas. A cidade não conhece misericórdia)
Não vou chorar. Não aqui, nem na frente do detetive. Não por ela.
Lá fora, na chuva, onde as gotas ocultarão minha dor, poderei chorar.
- Quer conversar lá fora?
- Não, Cowboy, está caindo um temporal e eu não tenho muito tempo. Você precisa me escutar.
- O que é?
- Me desculpa, Cowboy, por favor, me desculpa.
- É só isso?
- Não, Cowboy, não é só isso. Posso me sentar? Talvez você devesse se sentar também, Cowboy, é muito sério o que tenho para dizer.
O sofá.
Vai manchar o estofado. As roupas molhadas, a sujeira, o sebo imundo da polícia infiltrando o estofado. Mas que importa isso agora? Em minutos estarei enforcado, agonizando por amor, e mesmo assim gasto meus ultimos pensamento com o sofá.
- Escute, Cowboy, está vendo esse frasco de remédio?
(A pílula: maravilha do mundo moderno; salvação do homem; escudo contra doenças. O vírus é nosso inimigo. O vírus é nosso inimigo? No coração da cidade as fábricas riem. Fábricas sépticas, com esteiras higienizadas, produzindo pílulas aos montes. Hoje, as fábricas operam no escuro: o silêncio do silício)
(A pílula: maravilha do mundo moderno. Produzida em fábricas estéries, em esteiras higienizadas, aos montes, guardada em depósitos colossais e vazios. Vácuos humanos, desertos morais- o silêncio do silício. Onde quer que se olhe não se encontra sinal de que a alma existe. Um dia, as fábricas dominarão a cidade)
- Isto é um frasco de sonífero, Cowboy. Todo dia eu tomo um desses depois do trabalho e durmo em paz.
(Remédios contra consciência, remédios contra humores, remédios contra emoção. O marca-passo dita o ritmo do coração só até inventarem um peitoral de aço. Membros biônicos e homens de ferro. Máquinas que curam imperfeições - a química faz o resto)
- Antes de bater a sua porta, Cowboy, eu tomei esse frasco inteiro...
- ...
(Remédios contra o homem)
- Já não adianta mais vomitar, nem me arrepender. Eu não posso fazer mais nada por mim, mas você, Cowboy, você pode fazer toda diferença.
Preciso me sentar, preciso me sentar. Eu não quero fazer nada, eu só quero me enforcar. Só quero me enforcar em paz.
- Eu vou me deitar aqui e em pouco tempo vou começar a vomitar e me cagar todo. Isso aqui vai virar uma poça de mijo e bosta, mas, se você quiser, Cowboy, você pode usar isso aqui.
(Canhão de polvora e chumbo. Verdadeira maravilha do mundo moderno, salvação genuína de todos nós)
- E atirar na minha cabeça a qualquer momento, evitando todo sofrimento. Essa é minha desculpa para você, Cowboy. Espero que me perdoe. Você me perdoa, Cowboy?
- Não.
- Oh, então a noite vai ser longa...
Ela vai matar mais um hoje. Você merece isso por ter deixado ela ir pro velho, por ter tirado ela de mim. Você merece morrer na sujeira. Detetive, sua alma já está imunda.
Nada de lágrimas. Não posso. Lágrimas não. Não vou chorar, canalha, você não vai me ver chorar.
- Cadê ela, detetive? Cadê ela, droga!?
(Silêncio, depois golfadas, sujeira, pedaços de coisas que deveriam ficar dentro do corpo, mais sujeira, gritos de piedade se transformam em gritos irracionais e espasmos; o corpo se contorce no chão imundo rejeitando, com suas últimas forças, o veneno. Por fim, só silêncio. Uma vida leva um tempo atroz para se esvair)
Também rejeito a arma. Quem provou os beijos doces dela e os perdeu não pode nunca viver em paz. Nem morrer em paz, não é mesmo?
Não quero.
Não.
Só olhar.
Oito balas. Balanceada. Bom gosto.
A arma deveria ser a única mulher de um policial. Se tivesse sido assim você ainda estaria vivo... e eu também.
Eu sou um homem morto.
Adeus, detetive. Adeus, tempestade. Adeus, canal onze. Adeus, cidade. Adeus, meu amor...
Forca.
(Longe dali as fábricas riem. Um dia, as fábricas dominarão a cidade)
***
- Não!
(A cidade continua - chuva, buzinas, fumaça, suicidas)
Exijo vingança. Não por mim. Pelo chumbo.
Vingança contra a morte! Exijo sinceridade que nunca tive, sinceridade do sangue... e do chumbo.
Faca! Caneta. Sangue, faca! Caneta. Sangue.Carta.
Canal onze...
(Ruas escuras. A tempestade avança - calçadas alagadas, lama até o joelho. Um homem marcha - passo a passo - com o sobretudo e a arma de um morto)
#11 Os preparativos foram feitos. A festa está pronta. A cidade se prepara para o maior reveillon da história. Está difícil sobrevoar a Avenida Central por causa da tempestade. Os ventos estão muito fortes; mas temos imagens da multidão que se reúne na rua mesmo com água até a canela. Aqui o otimismo para o próximo ano é tremendo.
(Lectospirose)
O segurança não vai me deixar entrar. Pare de tremer! Tremer não vai ajudar. Segura firme essa arma! Rle não vai te deixar entrar por que você parece um mendigo com esse sobretudo imundo e essas calças sujas de lama. Você só tem uma opção: segura firme esse ferro!
#11 Está acontecendo alguma coisa, Daiane! A multidão está apavorada. Estou recebendo a informação de que alguém está atirando no meio da Avenida Central. O caos tomou conta. O povo corre tentando se refugiar nos prédios. Os seguranças estão sendo esmagados pelos invasores. Não sabemos ainda se alguém foi ferido pelos disparos.
Cinco balas.
Empurre, droga! Rápido, rápido! A escada de incêndio, antes que bloqueiem os acessos. Feche a porta! Os andares, quantos são? Não importa. Subir, subir, subir.
#11 Relatos chegaram até nós dizendo que um homem efetuou três disparos para o alto no meio da multidão, iniciando o tumulto. A identidade do homem ainda é desconhecida.
(Esgotos. Ruas. Casa. Todos sabem. Só os arranha-céus continuam alheios. Colapso. Muito andares acima - curtas raízes no chão. A verdade está longe demais deles)
Eu não vou conseguir. Eu não vou parar. Segurança. Dois. Eles não vão te deixar passar. Falta tão pouco, uma porta. Segura firme esse ferro!
Quatro balas.
Três balas.
(Champagne e piano de cauda. Orquestra. Black-tie. Dinheiro sujo - combustível do progresso)
#11 Estamos a véspera de um ano novo. A cidade se prepara para uma nova fase. O tumulto na Avenida Central infelizmente continua. Será o prenúncio de um ano conturbado? Preparem-se para a contagem regressiva.
Quanta gente! Onde ela está? Cadê? Rápido, ali, pule! Droga! Sai! Merda, quase. O velho...
(A cidade está mudando)
#11 Três,
- Morra, velho!
#11 Dois,
Duas balas.
- Cowboy, por favor, não...
(A voz da mocinha. A mulher fatal. Sangue no vestido, mãos no rosto. Gritos de pânico. Lá embaixo, na chuva, gritos de fúria)
- Eu ainda te amo.
#11 Um,
Uma bala.
- Essa carta é para você.
(Mãos frias. Buraco no peito, carta no vestido. Cheiro de pólvora, perfume de mulher)
A sacada, rápido! A arma não serve para nós, detetive. Caindo, caindo, c...
- Feliz Ano Novo!
#11 Feliz Ano Novo!
(Feliz Ano Novo!)
"Morro como vivi
Por que a morte não é diferente da vida.
Morro por que a morte coloca as coisas no seu devido lugar,
Os que me amaram: em caixões
Os que amei, em cofres.
E em meu peito um projétil do mesmo material de que é feito meu coração:
Metal.
Essa é a sinceridade do sangue,
Em memória de mim,"
Em memória de mim,
(Em memória de mim)
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