Morro sem ter experimentado o Amor.
Por que o Amor verdadeiro triunfa,
enquanto o meu morreu.
Morro por que vida pressupõe morte
e toda morte é vã;
toda morte é a derrota das virtudes.
Morte da força do indivíduo -
extinção dos sonhos, encerramento das obras
Morro, afinal, pela impossibilidade de triunfo
Em memória de mim,
Será que dói?
(A cidade continua - chuva, buzinas e fumaça)
Essa foi a única coisa sincera que escrevi em toda a minha vida. Sinceridade, agora eu sei, só é possível com sangue. Qualquer palavra se perde quando reduzida a um composto de carbono e alcatrão, prensado contra a celulóide por pistões de metal frio. Desumanemente frio.
Nenhuma palavra jamais teve chance de sobreviver a viagem tão ingrata Tenho agora consciência de que nunca escrevi uma linha se quer que fosse verdadeira usando falsa matéria prima. A falsidade é o componente principal das tintas industriais. Só com sangue, só com sangue é possível escrever algo sincero. E no fim, é o que restará de mim quando a tempestade passar e encontrarem um corpo pendurado.
(Um nó górdio é a solução. Um nó para desemaranhar os problemas da vida.Uum nó sustentando um indivíduo que vira um corpo, que vira cinzas, que vira nada)
Será que tenho coragem?
(A resposta é um nó)
É só respirar fundo.
(A cidade continua - chuva, buzinas, fumaça... campainha)
- Já vou!
Eu quero morrer, a cidade não deixa. Acertar a forca no lustre. Pronto? Encarar o Enfadonho que bate a porta na hora da morte.
- Quem é?
(Sirenes batem a porta. Um chapéu, um sobretudo e um distintivo. A chuva engoliu essa pessoa- pingos e gotas - seus pés trazem a lama de toda cidade)
- Cowboy? Abra a porta, sou eu, Dias, Detetive Dias. Preciso falar com você.
(Um rosto amigo)
Trinco. Chave. Maçaneta.
- O que veio fazer aqui? Não vai passar o ano com nossa amiga?
- Vim pedir desculpas.
- Cadê ela?
- Vamos, Cowboy, é sério, estou me desculpando.
- Cadê ela?
- O que é aquilo?
É a forca pendurada no lustre.
- É um varal pendurado no lustre. Estava chovendo na varanda.
- Você está bem, Cowboy?
- Cadê ela?
- Ela me trocou pelo velho. Ligue a TV no onze.
(Uma antena escura. Ondas eletromagnéticas. Cruzando o céu da cidade sem se incomodar com a chuva ou poluição. Para os homens, contudo, a chuva e poluição ainda reinam soberanas)
(Raios eletromagnéticos percorrem a cidade. Saem de uma antena escura e atravessam os céus sem se incomodar com a chuva ou com a poluição. Para os homens, contudo, hoje mais do que nunca, a chuva e a poluição reinam soberanas devorando casas e almas)
- Ali está ela, está vendo? Com o velho. Passando o reveillon numa cobertura na avenida Central. Na cobertura dele...
(Em outra parte, raios incineram lares e destroem histórias. Famílias não são poupadas. A cidade não conhece misericórdia)
Não vou chorar. Não aqui, nem na frente do detetive. Não por ela.
Lá fora, na chuva, onde as gotas ocultarão minha dor, poderei chorar.
- Quer conversar lá fora?
- Não, Cowboy, está caindo um temporal e eu não tenho muito tempo. Você precisa me escutar.
- O que é?
- Me desculpa, Cowboy, por favor, me desculpa.
- É só isso?
- Não, Cowboy, não é só isso. Posso me sentar? Talvez você devesse se sentar também, Cowboy, é muito sério o que tenho para dizer.
O sofá.
Vai manchar o estofado. As roupas molhadas, a sujeira, o sebo imundo da polícia infiltrando o estofado. Mas que importa isso agora? Em minutos estarei enforcado, agonizando por amor, e mesmo assim gasto meus ultimos pensamento com o sofá.
- Escute, Cowboy, está vendo esse frasco de remédio?
(A pílula: maravilha do mundo moderno; salvação do homem; escudo contra doenças. O vírus é nosso inimigo. O vírus é nosso inimigo? No coração da cidade as fábricas riem. Fábricas sépticas, com esteiras higienizadas, produzindo pílulas aos montes. Hoje, as fábricas operam no escuro: o silêncio do silício)
(A pílula: maravilha do mundo moderno. Produzida em fábricas estéries, em esteiras higienizadas, aos montes, guardada em depósitos colossais e vazios. Vácuos humanos, desertos morais- o silêncio do silício. Onde quer que se olhe não se encontra sinal de que a alma existe. Um dia, as fábricas dominarão a cidade)
- Isto é um frasco de sonífero, Cowboy. Todo dia eu tomo um desses depois do trabalho e durmo em paz.
(Remédios contra consciência, remédios contra humores, remédios contra emoção. O marca-passo dita o ritmo do coração só até inventarem um peitoral de aço. Membros biônicos e homens de ferro. Máquinas que curam imperfeições - a química faz o resto)
- Antes de bater a sua porta, Cowboy, eu tomei esse frasco inteiro...
- ...
(Remédios contra o homem)
- Já não adianta mais vomitar, nem me arrepender. Eu não posso fazer mais nada por mim, mas você, Cowboy, você pode fazer toda diferença.
Preciso me sentar, preciso me sentar. Eu não quero fazer nada, eu só quero me enforcar. Só quero me enforcar em paz.
- Eu vou me deitar aqui e em pouco tempo vou começar a vomitar e me cagar todo. Isso aqui vai virar uma poça de mijo e bosta, mas, se você quiser, Cowboy, você pode usar isso aqui.
(Canhão de polvora e chumbo. Verdadeira maravilha do mundo moderno, salvação genuína de todos nós)
- E atirar na minha cabeça a qualquer momento, evitando todo sofrimento. Essa é minha desculpa para você, Cowboy. Espero que me perdoe. Você me perdoa, Cowboy?
- Não.
- Oh, então a noite vai ser longa...
Ela vai matar mais um hoje. Você merece isso por ter deixado ela ir pro velho, por ter tirado ela de mim. Você merece morrer na sujeira. Detetive, sua alma já está imunda.
Nada de lágrimas. Não posso. Lágrimas não. Não vou chorar, canalha, você não vai me ver chorar.
- Cadê ela, detetive? Cadê ela, droga!?
(Silêncio, depois golfadas, sujeira, pedaços de coisas que deveriam ficar dentro do corpo, mais sujeira, gritos de piedade se transformam em gritos irracionais e espasmos; o corpo se contorce no chão imundo rejeitando, com suas últimas forças, o veneno. Por fim, só silêncio. Uma vida leva um tempo atroz para se esvair)
Também rejeito a arma. Quem provou os beijos doces dela e os perdeu não pode nunca viver em paz. Nem morrer em paz, não é mesmo?
Não quero.
Não.
Só olhar.
Oito balas. Balanceada. Bom gosto.
A arma deveria ser a única mulher de um policial. Se tivesse sido assim você ainda estaria vivo... e eu também.
Eu sou um homem morto.
Adeus, detetive. Adeus, tempestade. Adeus, canal onze. Adeus, cidade. Adeus, meu amor...
Forca.
(Longe dali as fábricas riem. Um dia, as fábricas dominarão a cidade)
***
- Não!
(A cidade continua - chuva, buzinas, fumaça, suicidas)
Exijo vingança. Não por mim. Pelo chumbo.
Vingança contra a morte! Exijo sinceridade que nunca tive, sinceridade do sangue... e do chumbo.
Faca! Caneta. Sangue, faca! Caneta. Sangue.Carta.
Canal onze...
(Ruas escuras. A tempestade avança - calçadas alagadas, lama até o joelho. Um homem marcha - passo a passo - com o sobretudo e a arma de um morto)
#11 Os preparativos foram feitos. A festa está pronta. A cidade se prepara para o maior reveillon da história. Está difícil sobrevoar a Avenida Central por causa da tempestade. Os ventos estão muito fortes; mas temos imagens da multidão que se reúne na rua mesmo com água até a canela. Aqui o otimismo para o próximo ano é tremendo.
(Lectospirose)
O segurança não vai me deixar entrar. Pare de tremer! Tremer não vai ajudar. Segura firme essa arma! Rle não vai te deixar entrar por que você parece um mendigo com esse sobretudo imundo e essas calças sujas de lama. Você só tem uma opção: segura firme esse ferro!
#11 Está acontecendo alguma coisa, Daiane! A multidão está apavorada. Estou recebendo a informação de que alguém está atirando no meio da Avenida Central. O caos tomou conta. O povo corre tentando se refugiar nos prédios. Os seguranças estão sendo esmagados pelos invasores. Não sabemos ainda se alguém foi ferido pelos disparos.
Cinco balas.
Empurre, droga! Rápido, rápido! A escada de incêndio, antes que bloqueiem os acessos. Feche a porta! Os andares, quantos são? Não importa. Subir, subir, subir.
#11 Relatos chegaram até nós dizendo que um homem efetuou três disparos para o alto no meio da multidão, iniciando o tumulto. A identidade do homem ainda é desconhecida.
(Esgotos. Ruas. Casa. Todos sabem. Só os arranha-céus continuam alheios. Colapso. Muito andares acima - curtas raízes no chão. A verdade está longe demais deles)
Eu não vou conseguir. Eu não vou parar. Segurança. Dois. Eles não vão te deixar passar. Falta tão pouco, uma porta. Segura firme esse ferro!
Quatro balas.
Três balas.
(Champagne e piano de cauda. Orquestra. Black-tie. Dinheiro sujo - combustível do progresso)
#11 Estamos a véspera de um ano novo. A cidade se prepara para uma nova fase. O tumulto na Avenida Central infelizmente continua. Será o prenúncio de um ano conturbado? Preparem-se para a contagem regressiva.
Quanta gente! Onde ela está? Cadê? Rápido, ali, pule! Droga! Sai! Merda, quase. O velho...
(A cidade está mudando)
#11 Três,
- Morra, velho!
#11 Dois,
Duas balas.
- Cowboy, por favor, não...
(A voz da mocinha. A mulher fatal. Sangue no vestido, mãos no rosto. Gritos de pânico. Lá embaixo, na chuva, gritos de fúria)
- Eu ainda te amo.
#11 Um,
Uma bala.
- Essa carta é para você.
(Mãos frias. Buraco no peito, carta no vestido. Cheiro de pólvora, perfume de mulher)
A sacada, rápido! A arma não serve para nós, detetive. Caindo, caindo, c...
- Feliz Ano Novo!
#11 Feliz Ano Novo!
(Feliz Ano Novo!)
"Morro como vivi
Por que a morte não é diferente da vida.
Morro por que a morte coloca as coisas no seu devido lugar,
Os que me amaram: em caixões
Os que amei, em cofres.
E em meu peito um projétil do mesmo material de que é feito meu coração:
Metal.
Essa é a sinceridade do sangue,
Em memória de mim,"
Em memória de mim,
(Em memória de mim)
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Ouvi em algum lugar que numa mesa de bar existem histórias reais e histórias falsas. Toda história, no entanto, não se refere a fatos presentes, dado que se se referissem a tais fatos, não seriam histórias, mas sim locuções. Como nada do que é contado diz respeito a algo presente qualquer história contada num bar deve ser considerada verdadeira.
O homem que me chamou atenção pra esse raciocínio é um grande amigo e alguém muito mais sábio do que eu. E mesmo depois de muitas cervejas continua tendo uma mente lúcida para os problemas da vida e do mundo. Sempre tomei a sonoridade dessas palavras como muito profunda e sincera, embora nunca tenha analisado de fato a lógica dessa afirmação.
Apesar disso, fico extremamente irritado quando alguém narra uma dessas histórias “suspeitas” apenas para fazer boa imagem aos ouvintes. Quando usam essa tática para impressionar mulheres então, me tira do sério.
O imbecil que se acotovelava ao meu lado, tentando fazer pose de machão para gatinha sentada na janela do jipe, estava, justamente, contando uma dessas histórias. Normalmente eu sairia do ambiente, mas trancado no carro é difícil não escutar:
- Escuta! Estou dizendo. Lasker jogou xadrez contra Hitler e perdeu. Hitler era um grande estrategista. – disse o imbecil.
- É mesmo? - em voz melodiosa perguntou a gatinha.
- Pode apostar. Hitler sacrificou a rainha para aplicar um xeque mate. Foi uma partida épica. Lasker disse que aprendeu muito com o jogo e que esse aprendizado foi indispensável na conquista do título mundial de xadrez.
Não era só eu que estava incomodado com aquele papo furado. Os outros passageiros do jipe trocavam olhares de tédio e irritação com aquelas asneiras. Já tinhamos ouvido aquele papinho por tempo demais e a única que parecia ainda não ter cogitado cortar os pulsos era a gatinha. Talvez seja por que as mulheres treinam a vida toda ouvir ladainha e manter-se simpáticas, talvez fosse apenas esse magnetismo que babacas geram em certas garotas, mesmo assim, minha paciência já estava na casa do caralho.
- Cara, Lasker era judeu – eu disse, não podendo mais me conter.
Todos sorriram, menos o imbecil.
- Ah, é? – disse o imbecil. Ouvia-se o barulho de engrenagens mentais movendo-se rapidamente – Bom, mas isso foi antes da guerra. O Lasker foi campeão mundial até 21.
Olhei pela janela, sem dar qualquer resposta.
Lasker foi campeão mundial durante 27 anos. Isso significa que, para ter dedicado seu primeiro título ao que aprendeu na partida contra seu tão amado Hitler, Lasker precisaria ter jogado contra o Führer antes de 1884. Hitler teria na época, aproximadamente, uns menos cinco anos. Que grande prodígio, hein!
Mesmo assim, calei-me. O babaca ficara minimamente abalado com minha intervenção e tinha parado de falar. Eu não desejava iniciar uma discussão. Queria silêncio. Precisava me concentrar para partida de xadrez e penso melhor sem barulho em volta.
- Aaaaahhh! – um grito agudo da gatinha – Que monstrão!
Olhamos todos para a janela dela. O jipe acabara de passar por uma grande estátua de javali. Um grande e terrível javali.
- Sabia que existem lendas sobre javalis no esgoto de Londres? - disse o babaca vendo nova brecha. Já estava, novamente, se acotovelando sobre mim. – Eles dizem que o Javali é a “Grande Besta de Londres”.
- É mesmo? - respondeu a gatinha.
- Claro! Javalis em Londres e jacarés em Nova York. – disse satisfeito o babaca.
Aflito em ter que ouvir uma nova história merda do imbecil, me inclinei em direção ao motorista atrás de informações.
- Estamos chegando? – perguntei.
- Estamos mais perto. A casa dos Madson fica a 333 quilômetros passado aquele Javali. – disse o motorista.
- Por que eles moram tão escondidos? - perguntei.
- Ninguém te falou nada?
- Não....
- Como você foi convidado?
- Chegou uma carta pra mim dizendo pra vir pra cá.
- Ah, e os Madson não explicaram nada na carta?
- Não, não foram os Madson que mandaram a carta. Foi meu tio Hugo.
- E você não ligou ou tentou falar com seu tio pedindo mais informações?
- Não... Eu não saberia como fazê-lo.
- Ora, por que?
- Por que meu tio Hugo morreu há 3 anos.
O homem que me chamou atenção pra esse raciocínio é um grande amigo e alguém muito mais sábio do que eu. E mesmo depois de muitas cervejas continua tendo uma mente lúcida para os problemas da vida e do mundo. Sempre tomei a sonoridade dessas palavras como muito profunda e sincera, embora nunca tenha analisado de fato a lógica dessa afirmação.
Apesar disso, fico extremamente irritado quando alguém narra uma dessas histórias “suspeitas” apenas para fazer boa imagem aos ouvintes. Quando usam essa tática para impressionar mulheres então, me tira do sério.
O imbecil que se acotovelava ao meu lado, tentando fazer pose de machão para gatinha sentada na janela do jipe, estava, justamente, contando uma dessas histórias. Normalmente eu sairia do ambiente, mas trancado no carro é difícil não escutar:
- Escuta! Estou dizendo. Lasker jogou xadrez contra Hitler e perdeu. Hitler era um grande estrategista. – disse o imbecil.
- É mesmo? - em voz melodiosa perguntou a gatinha.
- Pode apostar. Hitler sacrificou a rainha para aplicar um xeque mate. Foi uma partida épica. Lasker disse que aprendeu muito com o jogo e que esse aprendizado foi indispensável na conquista do título mundial de xadrez.
Não era só eu que estava incomodado com aquele papo furado. Os outros passageiros do jipe trocavam olhares de tédio e irritação com aquelas asneiras. Já tinhamos ouvido aquele papinho por tempo demais e a única que parecia ainda não ter cogitado cortar os pulsos era a gatinha. Talvez seja por que as mulheres treinam a vida toda ouvir ladainha e manter-se simpáticas, talvez fosse apenas esse magnetismo que babacas geram em certas garotas, mesmo assim, minha paciência já estava na casa do caralho.
- Cara, Lasker era judeu – eu disse, não podendo mais me conter.
Todos sorriram, menos o imbecil.
- Ah, é? – disse o imbecil. Ouvia-se o barulho de engrenagens mentais movendo-se rapidamente – Bom, mas isso foi antes da guerra. O Lasker foi campeão mundial até 21.
Olhei pela janela, sem dar qualquer resposta.
Lasker foi campeão mundial durante 27 anos. Isso significa que, para ter dedicado seu primeiro título ao que aprendeu na partida contra seu tão amado Hitler, Lasker precisaria ter jogado contra o Führer antes de 1884. Hitler teria na época, aproximadamente, uns menos cinco anos. Que grande prodígio, hein!
Mesmo assim, calei-me. O babaca ficara minimamente abalado com minha intervenção e tinha parado de falar. Eu não desejava iniciar uma discussão. Queria silêncio. Precisava me concentrar para partida de xadrez e penso melhor sem barulho em volta.
- Aaaaahhh! – um grito agudo da gatinha – Que monstrão!
Olhamos todos para a janela dela. O jipe acabara de passar por uma grande estátua de javali. Um grande e terrível javali.
- Sabia que existem lendas sobre javalis no esgoto de Londres? - disse o babaca vendo nova brecha. Já estava, novamente, se acotovelando sobre mim. – Eles dizem que o Javali é a “Grande Besta de Londres”.
- É mesmo? - respondeu a gatinha.
- Claro! Javalis em Londres e jacarés em Nova York. – disse satisfeito o babaca.
Aflito em ter que ouvir uma nova história merda do imbecil, me inclinei em direção ao motorista atrás de informações.
- Estamos chegando? – perguntei.
- Estamos mais perto. A casa dos Madson fica a 333 quilômetros passado aquele Javali. – disse o motorista.
- Por que eles moram tão escondidos? - perguntei.
- Ninguém te falou nada?
- Não....
- Como você foi convidado?
- Chegou uma carta pra mim dizendo pra vir pra cá.
- Ah, e os Madson não explicaram nada na carta?
- Não, não foram os Madson que mandaram a carta. Foi meu tio Hugo.
- E você não ligou ou tentou falar com seu tio pedindo mais informações?
- Não... Eu não saberia como fazê-lo.
- Ora, por que?
- Por que meu tio Hugo morreu há 3 anos.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Desafio contra personagem histórico
Diante das infindáveis lápides brancas que se estendiam da ponta dos meus pés até onde meus olhos alcançavam, na borda do horizonte e por milhares de kilômetros depois, tive certeza de que aquele era um local de imensa grandeza. Entretanto, toda aquela magnífica estrutura parecia sustentada por frágil força que, ao menor vento, poderia ceder e tombar catastroficamente.
É certo que o sol, batendo contra as lápides, fazia brilhar-lhes a alvidez pétria e, ofuscado pela luz, o campo todo ficava como uma imensa vastidão de dominós de ossos equilibrados em pé até perder de vista. Ao mais ínfimo deslize poderia-se derrubar uma única peça, originando uma reação em cadeia sem precedentes, extinguindo definitivamente toda história da humanidade, (como dominós caindo em sequência).
Precisava me concentrar em perturbar o mínimo possível as sepulturas. Qualquer ação que não fosse séria e focada era potencialmente apocalíptica...
- E então? O túmulo de que presunto você escolheu pra profanar? – ele falou.
- Ummm... ainda não sei. Pensei em exumar o corpo do Sherlock Holmes...
- Idiota! Sherlock Holmes não é um personagem histórico!
- Não é? – eu estava surpreso.
- Não, sua mula! Ele é um personagem fictício, precisamos de um personagem histórico para o desafio.
- Mas Sherlock Holmes existiu, tenho certeza! Ele morava na Baker Street, número 221, em Londres. Eu mandei uma carta pra ele ano passado, quando roubaram minha edição especial do “Cavaleiro das Trevas”, mas Holmes nunca respondeu. Assumi que estava morto. Mas talvez ele só não goste muito do Batman, sabe? Por que o Batman também é considerado o maior detetive do mundo e tudo mais. Deve ser uma questão de rivalidade, eu acho... É isso! Podíamos exumar o Batman.
- Oh, bom deus, dai me paciência! Você tem ideia de quanta merda sai dessa fossa que você chama de boca?
- Calma, calma, eu só estava brincando! Eu sei que o Batman não está morto. Foi só um lance publicitário e tal. Agora me aponte onde é o túmulo do Sherlock e vamos cavar!
- Seu corno! Eu já disse que Sherlock Holmes não é real! Seu maldito, você tem a honra de dispor de minhas habilidades médicas únicas e desperdiça meu tempo com sua incompetência sem par e suas ideias idiotas. Onde eu estava com a cabeça ao aceitar essa tarefa? Oh, deus...
- Calma, Victor! Se você não quer desenterrar o Sherlock podemos escolher outro, ora. Que tal aquele monstro que você criou, o tal Frankenstein?
- Porra! É isso! Você chegou ao meu limite! Frankenstein não é o nome do monstro, seu acéfalo, é o MEU nome. Victor Frankenstein. Doutor Victor Frankenstein. Você contrata meus serviços e sequer sabe meu nome? Seu animal.
- Ok, ok... Não precisa me xingar, tá bem? Eu entendi, você é o Frankenstein. Mas o que aconteceu ao monstro afinal? Ele está por aqui? – apontei para o gigantesco cemitério.
- Não quero falar sobre isso, tudo bem? – as feições de Victor se contraíram até formar um bico de alguém bem emburrado.
- Bom... tudo bem então.... Mas, ora, o que temos aqui!
Apontei para uma lápide com a pá. Victor abaixou-se e soprou a poeira que escondia a inscrição: “Gengis Khan”. Um arrepio percorreu nossas espinhas. Sabíamos que havíamos achado aquele que procurávamos. Bom, pelo menos EU sabia, por que Victor perguntou:
- Tem certeza de que quer que eu ressuscite esse demônio?
- Claro! Ele é um personagem histórico, não é? E também foi muito poderoso, não foi? O que de errado poderia ocorrer?
- ... Xiu! Faz silêncio, ouvi alguma coisa naquele canto.
- Mas você não disse que estaríamos sozi...
- Xiu! Cale a boca, idiota!
Era pra estarmos só nós dois neste local secreto, mas a direita, a uns trezentos metros de distância, duas figuras esguias nos observavam. Uma delas carregava um trambolho imenso amarrado ao peito. Victor exasperou-se:
- Oh, Deus, oh, Deus... é o ... o .... Psicopata do acordeão!
Começamos a correr desesperadamente na direção oposta, pulando lápides, tropeçando em buracos, desembestados, aterrorizados. Atrás de nós o psicopata já começara a empurrar e puxar a gaita do acordeão, fazendo seus sons macabros que exigiam que ele movesse todo seu peito, ombros e braços de forma ritmada e metódica, tal qual faria uma serpente encantada pela música. O Psicopata era o horror dos horrores, um ser vil, a quem eu, idiotamente, havia proposto um desafio. Era óbvio que não poderíamos rivalizar seu poder maligno despreparados como estávamos. Mesmo assim, tornou-se igualmente claro que não conseguiríamos correr mais que ele, que treinou durante anos movimentar-se com uma acordeão pesado nos ombros e tinha, por isso, músculos como fios de aço.
Parei e virei, segurando a pá como um taco de baseball. Victor se protegeu atrás de mim. Estávamos morrendo de medo, mas tentei parecer perigoso. O Psicopata do acordeão se aproximou o suficiente para vermos seu sorriso maligno, emoldurado pelo cavanhaque que estampava orgulhoso em sua odiosa face . Durante muitos instantes, ninguém disse nada, até o psicopata tomar a iniciativa:
- Ô, pá. Era óbvio que encontrar-te-ia a ti aqui, gajo, eu queria apresentar-te um amigo. – o homicida louco respirou fundo – Puf, puf... cansaram-me em demasia com a corrida. Estavas a tentar escapar de mim, cabrão estúpido? E quem és tu que ajudas meu inimigo?
- Não se aproxime, maldito louco do acordeão! – gritei a plenos pulmões – Estou a avisar-te. Quer dizer: estou avisando!
- Não me aproximar-me-ei de ti, covarde. Mas eis meu amigo que trará sua destruição nas regras de nosso desafio!
Esgueirando-se por de trás de uma lápide surgiu um velho caolho, com roupas de nobre e chapéu de pena. Era Camões e portava armas, mas nenhum barão assinalado.
- Espere! Eu ainda não estou pronto! – gritei.
Não adiantou. Camões sacou a pistola e deu 5 tiros em minha direção. Quer dizer, mais ou menos. Os tiros nem passaram perto de mim, um deles, inclusive, eu acho que foi pra cima. Penso que aquilo era o melhor que ele conseguia fazer com um olho só. Sorte minha. Sei que Camões pareceu um pouco decepcionado com a situação, talvez até um pouco triste. Levou um tempo até ele se recompor, sacar sua espada e correr pra cima de mim. Me defendi com minha pá e começamos a nos degladiar ferozmente por entre as lápides brancas do cemitério.
- Faça alguma coisa, Victor! Preciso de ajuda! – gritei ao doutor.
- Estou fazendo, estou fazendo! – respondeu Victor, cavando uma sepultura próxima – Será perfeito!
Minha situação ficava tensa. O século XVI sem dúvida treinava melhor seus espadachins do que o atual, e a cada golpe de Camões eu me feria, cortava e sangrava mais e mais. Por fim, me vi desarmado no chão, com sua espada em minha garganta e um sorriso em sua face. Dada a certeza de sua vitória, Camões recitou:
“Quem será estrouto cá, que o campo arrasa
de mortos, com presença furibunda?
Grandes batalhas tem desbaratadas,
Que as águias nas bandeiras tem pintadas!”
Levantou a espada, ainda sorrindo, pronto para desferir o golpe derradeiro em meu pescoço. A lâmina fez um arco preciso no ar até chegar a um triz de minha jugular pulsante. Antes de atingir seu destino final – que também seria meu destino final – manchando o campo de vermelho, o golpe foi bloqueado:
“Se por mil anos, nesta furna escura,
Deixei dormir a minha maldição,
Hoje, velha e cansada da amargura,
Minha alma se abrirá como um vulcão.
E, em torrentes de cólera e loucura,
Sobre a tua cabeça ferverão
Mil anos de silêncio e de tortura,
Mil anos de agonia e solidão...”
Olavo Bilac empunhando portentosa espada calou o zunir da lâmina de Camões. A ira nos olhos do parnasiano misturava-se com contentamento por ter sido revivido. Atrás do príncipe dos poetas brasileiros Victor ria, certo de sua maestria em trazer de volta a vida os mortos. Camões, abalado, tentou trespassar Bilac com uma estocada firme e derradeira. Olavo, com precisão cirúrgica de um doutor em medicina e poesia desviou a ponta da espada do maldito português e num contragolpe fantástico rotacionou sua defesa abrindo a guarda de Camões enquanto decepava sua mão.
Não mais sorriam, nem o Psicopata do acordeão, nem o poeta português. A mesa havia virado e, vendo a derrota cada vez mais próxima, os vilões preparavam-se para correr. Camões apanhou sua mão caída e a balançou num gesto obsceno.
- Corram, patifes! Fujam, malditos portugueses! A vitória é nossa, seus calhordas! Peguem suas malditas caravelas e retornem a sua terra de mulheres bigodudas de uma vez! – gritei orgulhoso e confiante.
- Tu não ganhaste ainda, cabrão. Hoje deixo-te a ti com a vitória, mas retornarei! E nossas mulheres não são bigodudas, pá, elas fazem a barba com Mach-3, nem mais se percebe! – respondeu ressentido o Psicopata do acordeão.
Rimos os três, Victor, Olavo e eu. Apreciamos a visão da fuga desembestada dos dois maníacos, certos de que iriam voltar e convictos de que estaríamos preparados. Restava saber qual seria o tema do próximo desafio, mas isso era uma preocupação só para depois de uns copos de cerveja.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Desafio de Xadrez
Eu me preparava para o jogo de minha vida. Armei as peças no tabuleiro, bebi o último copo d’água, abotoei minha camisa e me aprumei, como sempre fazia antes de uma partida de xadrez, havendo ou não platéia. Desta vez, não havia.
Há quem diga que xadrez é uma filosofia de vida e pode até ser. Sei apenas que muita coisa se desenrola por trás do simples mover de peças. No tecer do jogo vemos a verdadeira face do adversário - agressivo, defensivo, ousado, ardiloso, impulsivo, cuidadoso - corrija seu jogo de xadrez e melhorará sua forma de jogar a vida. Bom, isso é só o que dizem. Seja como for, meu desafiante já me conhecia tão a fundo que me deixava doente.
A abertura se seguiu como um livro, empurrei o peão branco a solidão do fronte, esperando que algum dia aquele mesmo peão voltasse a mim como um general. Queria ver as pretas sufocadas, desmoronando sobre o avanço do império branco – mas a cada jogada, a cada lance, a cada golpe desferido, as pretas se defendiam como um leão, antecipando meus movimentos, prevendo o que iria acontecer, se protegendo como eu sabia que deveriam se proteger. No xadrez, como na vida, eram dois opostos complementares. O adversário me atormentava com sua calma, suas defesas planejadas. Eu respondia com cólera e ataques vacilantes. A secular rivalidade entre brancos e pretos não conseguia dissimular a verdade por trás das máscaras: os reis opostos eram duas faces da mesma moeda...
Assim foi até o jogo médio.
Era minha vez, mas só havia nuvens negras no horizonte. Qualquer lance que eu pudesse imaginar tinha uma resposta cruel e dura. Eu sabia que qualquer ponto fraco de minhas jogadas seria usado sem piedade. Minha estrutura toda perigava desmoronar como um castelo de cartas. Pior ainda, o jogo começava a me deixar nervoso. Eu olhava minhas peças na esperança de encontrar algum apoio, algum olhar amigo, alguém disposto a ir a linha de frente com coragem e força pra vencer, mas as peças nada me diziam.No quarto reinava o mais absoluto silêncio. Eu sabia que o único apreensivo ali era eu. Mesmo o cavalo branco, ameaçado pelo bispo, permanecia calmo.
Precisava me lembrar de alguma jogada, qualquer forma de sair de uma situação que eu mesmo criara. Havia, eu sabia, uma armadilha que meu tio Hugo me ensinara - usando o par de bispo - mas tal movimento poderia ser anulado se o adversário entendesse o que se pretendia fazer - e ele entenderia, com sua calma distante - assim, não poderia me valer desse trunfo.
O bom xadrez, pra mim, parece com os filmes do M. Night Shyamalan. Você deve colocar o oponente numa situação densa: perigosa e misteriosa. Deixá-lo desvendar aos poucos a trama que você teceu, mas ao final, e somente ao final, revelar o grande segredo, que dá sentido a obra. O segredo escondido atrás de pistas óbvias que o oponente deixou passar imerso que estava em seu truque de fumaça e espelhos. O problema para quem age desta forma é se corroer pela insegurança e a cada lance se perguntar: “Será que o adversário percebeu?”.
Desta vez não adiantaria surpreender. A lógica, o cálculo, a jogada precisa e correta era a minha única preocupação. Mas até onde ia minha imaginação vários de meus ataques seriam respondidos com fatais contra-ataques. Os demais dependiam tanto do humor de meu adversário que não poderiam ser previstos. Tem gente que crê em destino, mas como acreditar que os caminhos já estão escolhidos se mesmo no xadrez, no frio e lógico xadrez, o futuro é tão incerto?
O silêncio estava me consumindo. Onde estariam os gritos e clamores de guerra do eterno embate entre pretas e brancas? Na angústia inspiradora veio a resposta do enigma: a única jogada que o deixaria nervoso era aquela em que há um branco em minha cabeça, um vazio nos meus cálculos, aquela que não planejei, aquela que surge de uma parte de mim que é mais do que sei.
Avancei o bispo pela diagonal secreta, rasgando os campos com futuro incerto, carregando consigo somente o orgulho de saber seu passado, ele era um dos brancos e isso teria que bastar-lhe. Estava preparado, mesmo sem saber o que lhe aguardava.
Paralisei-me. A última jogada fora completamente imprevista. Nenhuma resposta vinha a minha cabeça. Era minha vez, mas só havia nuvens negras no horizonte. Minha estrutura toda perigava desmoronar como um castelo de cartas. Procurei novamente nas peças algum sinal de nervosismo, mas só estava eu ali. Com toda minha angústia.
Respirei fundo. Deixei a partida pra depois. Quando se joga sozinho pode-se parar quando quiser. Mesmo assim, saia da partida convicto: independente do que qualquer otimista possa achar, quando se joga consigo mesmo não há como ganhar
terça-feira, 29 de setembro de 2009
"Comece algo com o pé direito" dizia meu velho esperando que em algum momento eu desse um rumo a minha vida. Eu nunca segui nenhum conselho que ele me deu fora esse. É quando aperto o pedal com meu pé direito e injeto a gasolina nas válvulas explosivas do motor que meu olhos vêem um rumo, meu corpo todo se move em um sentido.
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