Eu me preparava para o jogo de minha vida. Armei as peças no tabuleiro, bebi o último copo d’água, abotoei minha camisa e me aprumei, como sempre fazia antes de uma partida de xadrez, havendo ou não platéia. Desta vez, não havia.
Há quem diga que xadrez é uma filosofia de vida e pode até ser. Sei apenas que muita coisa se desenrola por trás do simples mover de peças. No tecer do jogo vemos a verdadeira face do adversário - agressivo, defensivo, ousado, ardiloso, impulsivo, cuidadoso - corrija seu jogo de xadrez e melhorará sua forma de jogar a vida. Bom, isso é só o que dizem. Seja como for, meu desafiante já me conhecia tão a fundo que me deixava doente.
A abertura se seguiu como um livro, empurrei o peão branco a solidão do fronte, esperando que algum dia aquele mesmo peão voltasse a mim como um general. Queria ver as pretas sufocadas, desmoronando sobre o avanço do império branco – mas a cada jogada, a cada lance, a cada golpe desferido, as pretas se defendiam como um leão, antecipando meus movimentos, prevendo o que iria acontecer, se protegendo como eu sabia que deveriam se proteger. No xadrez, como na vida, eram dois opostos complementares. O adversário me atormentava com sua calma, suas defesas planejadas. Eu respondia com cólera e ataques vacilantes. A secular rivalidade entre brancos e pretos não conseguia dissimular a verdade por trás das máscaras: os reis opostos eram duas faces da mesma moeda...
Assim foi até o jogo médio.
Era minha vez, mas só havia nuvens negras no horizonte. Qualquer lance que eu pudesse imaginar tinha uma resposta cruel e dura. Eu sabia que qualquer ponto fraco de minhas jogadas seria usado sem piedade. Minha estrutura toda perigava desmoronar como um castelo de cartas. Pior ainda, o jogo começava a me deixar nervoso. Eu olhava minhas peças na esperança de encontrar algum apoio, algum olhar amigo, alguém disposto a ir a linha de frente com coragem e força pra vencer, mas as peças nada me diziam.No quarto reinava o mais absoluto silêncio. Eu sabia que o único apreensivo ali era eu. Mesmo o cavalo branco, ameaçado pelo bispo, permanecia calmo.
Precisava me lembrar de alguma jogada, qualquer forma de sair de uma situação que eu mesmo criara. Havia, eu sabia, uma armadilha que meu tio Hugo me ensinara - usando o par de bispo - mas tal movimento poderia ser anulado se o adversário entendesse o que se pretendia fazer - e ele entenderia, com sua calma distante - assim, não poderia me valer desse trunfo.
O bom xadrez, pra mim, parece com os filmes do M. Night Shyamalan. Você deve colocar o oponente numa situação densa: perigosa e misteriosa. Deixá-lo desvendar aos poucos a trama que você teceu, mas ao final, e somente ao final, revelar o grande segredo, que dá sentido a obra. O segredo escondido atrás de pistas óbvias que o oponente deixou passar imerso que estava em seu truque de fumaça e espelhos. O problema para quem age desta forma é se corroer pela insegurança e a cada lance se perguntar: “Será que o adversário percebeu?”.
Desta vez não adiantaria surpreender. A lógica, o cálculo, a jogada precisa e correta era a minha única preocupação. Mas até onde ia minha imaginação vários de meus ataques seriam respondidos com fatais contra-ataques. Os demais dependiam tanto do humor de meu adversário que não poderiam ser previstos. Tem gente que crê em destino, mas como acreditar que os caminhos já estão escolhidos se mesmo no xadrez, no frio e lógico xadrez, o futuro é tão incerto?
O silêncio estava me consumindo. Onde estariam os gritos e clamores de guerra do eterno embate entre pretas e brancas? Na angústia inspiradora veio a resposta do enigma: a única jogada que o deixaria nervoso era aquela em que há um branco em minha cabeça, um vazio nos meus cálculos, aquela que não planejei, aquela que surge de uma parte de mim que é mais do que sei.
Avancei o bispo pela diagonal secreta, rasgando os campos com futuro incerto, carregando consigo somente o orgulho de saber seu passado, ele era um dos brancos e isso teria que bastar-lhe. Estava preparado, mesmo sem saber o que lhe aguardava.
Paralisei-me. A última jogada fora completamente imprevista. Nenhuma resposta vinha a minha cabeça. Era minha vez, mas só havia nuvens negras no horizonte. Minha estrutura toda perigava desmoronar como um castelo de cartas. Procurei novamente nas peças algum sinal de nervosismo, mas só estava eu ali. Com toda minha angústia.
Respirei fundo. Deixei a partida pra depois. Quando se joga sozinho pode-se parar quando quiser. Mesmo assim, saia da partida convicto: independente do que qualquer otimista possa achar, quando se joga consigo mesmo não há como ganhar
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