Ouvi em algum lugar que numa mesa de bar existem histórias reais e histórias falsas. Toda história, no entanto, não se refere a fatos presentes, dado que se se referissem a tais fatos, não seriam histórias, mas sim locuções. Como nada do que é contado diz respeito a algo presente qualquer história contada num bar deve ser considerada verdadeira.
O homem que me chamou atenção pra esse raciocínio é um grande amigo e alguém muito mais sábio do que eu. E mesmo depois de muitas cervejas continua tendo uma mente lúcida para os problemas da vida e do mundo. Sempre tomei a sonoridade dessas palavras como muito profunda e sincera, embora nunca tenha analisado de fato a lógica dessa afirmação.
Apesar disso, fico extremamente irritado quando alguém narra uma dessas histórias “suspeitas” apenas para fazer boa imagem aos ouvintes. Quando usam essa tática para impressionar mulheres então, me tira do sério.
O imbecil que se acotovelava ao meu lado, tentando fazer pose de machão para gatinha sentada na janela do jipe, estava, justamente, contando uma dessas histórias. Normalmente eu sairia do ambiente, mas trancado no carro é difícil não escutar:
- Escuta! Estou dizendo. Lasker jogou xadrez contra Hitler e perdeu. Hitler era um grande estrategista. – disse o imbecil.
- É mesmo? - em voz melodiosa perguntou a gatinha.
- Pode apostar. Hitler sacrificou a rainha para aplicar um xeque mate. Foi uma partida épica. Lasker disse que aprendeu muito com o jogo e que esse aprendizado foi indispensável na conquista do título mundial de xadrez.
Não era só eu que estava incomodado com aquele papo furado. Os outros passageiros do jipe trocavam olhares de tédio e irritação com aquelas asneiras. Já tinhamos ouvido aquele papinho por tempo demais e a única que parecia ainda não ter cogitado cortar os pulsos era a gatinha. Talvez seja por que as mulheres treinam a vida toda ouvir ladainha e manter-se simpáticas, talvez fosse apenas esse magnetismo que babacas geram em certas garotas, mesmo assim, minha paciência já estava na casa do caralho.
- Cara, Lasker era judeu – eu disse, não podendo mais me conter.
Todos sorriram, menos o imbecil.
- Ah, é? – disse o imbecil. Ouvia-se o barulho de engrenagens mentais movendo-se rapidamente – Bom, mas isso foi antes da guerra. O Lasker foi campeão mundial até 21.
Olhei pela janela, sem dar qualquer resposta.
Lasker foi campeão mundial durante 27 anos. Isso significa que, para ter dedicado seu primeiro título ao que aprendeu na partida contra seu tão amado Hitler, Lasker precisaria ter jogado contra o Führer antes de 1884. Hitler teria na época, aproximadamente, uns menos cinco anos. Que grande prodígio, hein!
Mesmo assim, calei-me. O babaca ficara minimamente abalado com minha intervenção e tinha parado de falar. Eu não desejava iniciar uma discussão. Queria silêncio. Precisava me concentrar para partida de xadrez e penso melhor sem barulho em volta.
- Aaaaahhh! – um grito agudo da gatinha – Que monstrão!
Olhamos todos para a janela dela. O jipe acabara de passar por uma grande estátua de javali. Um grande e terrível javali.
- Sabia que existem lendas sobre javalis no esgoto de Londres? - disse o babaca vendo nova brecha. Já estava, novamente, se acotovelando sobre mim. – Eles dizem que o Javali é a “Grande Besta de Londres”.
- É mesmo? - respondeu a gatinha.
- Claro! Javalis em Londres e jacarés em Nova York. – disse satisfeito o babaca.
Aflito em ter que ouvir uma nova história merda do imbecil, me inclinei em direção ao motorista atrás de informações.
- Estamos chegando? – perguntei.
- Estamos mais perto. A casa dos Madson fica a 333 quilômetros passado aquele Javali. – disse o motorista.
- Por que eles moram tão escondidos? - perguntei.
- Ninguém te falou nada?
- Não....
- Como você foi convidado?
- Chegou uma carta pra mim dizendo pra vir pra cá.
- Ah, e os Madson não explicaram nada na carta?
- Não, não foram os Madson que mandaram a carta. Foi meu tio Hugo.
- E você não ligou ou tentou falar com seu tio pedindo mais informações?
- Não... Eu não saberia como fazê-lo.
- Ora, por que?
- Por que meu tio Hugo morreu há 3 anos.
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