sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Desafio contra personagem histórico



Diante das infindáveis lápides brancas que se estendiam da ponta dos meus pés até onde meus olhos alcançavam, na borda do horizonte e por milhares de kilômetros depois, tive certeza de que aquele era um local de imensa grandeza. Entretanto, toda aquela magnífica estrutura parecia sustentada por frágil força que, ao menor vento, poderia ceder e tombar catastroficamente.
É certo que o sol, batendo contra as lápides, fazia brilhar-lhes a alvidez pétria e, ofuscado pela luz, o campo todo ficava como uma imensa vastidão de dominós de ossos equilibrados em pé até perder de vista. Ao mais ínfimo deslize poderia-se derrubar uma única peça, originando uma reação em cadeia sem precedentes, extinguindo definitivamente toda história da humanidade, (como dominós caindo em sequência).
Precisava me concentrar em perturbar o mínimo possível as sepulturas. Qualquer ação que não fosse séria e focada era potencialmente apocalíptica...

- E então? O túmulo de que presunto você escolheu pra profanar? – ele falou.

- Ummm... ainda não sei. Pensei em exumar o corpo do Sherlock Holmes...

- Idiota! Sherlock Holmes não é um personagem histórico!

- Não é? – eu estava surpreso.

- Não, sua mula! Ele é um personagem fictício, precisamos de um personagem histórico para o desafio.

- Mas Sherlock Holmes existiu, tenho certeza! Ele morava na Baker Street, número 221, em Londres. Eu mandei uma carta pra ele ano passado, quando roubaram minha edição especial do “Cavaleiro das Trevas”, mas Holmes nunca respondeu. Assumi que estava morto. Mas talvez ele só não goste muito do Batman, sabe? Por que o Batman também é considerado o maior detetive do mundo e tudo mais. Deve ser uma questão de rivalidade, eu acho... É isso! Podíamos exumar o Batman.

- Oh, bom deus, dai me paciência! Você tem ideia de quanta merda sai dessa fossa que você chama de boca?

- Calma, calma, eu só estava brincando! Eu sei que o Batman não está morto. Foi só um lance publicitário e tal. Agora me aponte onde é o túmulo do Sherlock e vamos cavar!

- Seu corno! Eu já disse que Sherlock Holmes não é real! Seu maldito, você tem a honra de dispor de minhas habilidades médicas únicas e desperdiça meu tempo com sua incompetência sem par e suas ideias idiotas. Onde eu estava com a cabeça ao aceitar essa tarefa? Oh, deus...

- Calma, Victor! Se você não quer desenterrar o Sherlock podemos escolher outro, ora. Que tal aquele monstro que você criou, o tal Frankenstein?

- Porra! É isso! Você chegou ao meu limite! Frankenstein não é o nome do monstro, seu acéfalo, é o MEU nome. Victor Frankenstein. Doutor Victor Frankenstein. Você contrata meus serviços e sequer sabe meu nome? Seu animal.

- Ok, ok... Não precisa me xingar, tá bem? Eu entendi, você é o Frankenstein. Mas o que aconteceu ao monstro afinal? Ele está por aqui? – apontei para o gigantesco cemitério.

- Não quero falar sobre isso, tudo bem? – as feições de Victor se contraíram até formar um bico de alguém bem emburrado.

- Bom... tudo bem então.... Mas, ora, o que temos aqui!

Apontei para uma lápide com a pá. Victor abaixou-se e soprou a poeira que escondia a inscrição: “Gengis Khan”. Um arrepio percorreu nossas espinhas. Sabíamos que havíamos achado aquele que procurávamos. Bom, pelo menos EU sabia, por que Victor perguntou:

- Tem certeza de que quer que eu ressuscite esse demônio?

- Claro! Ele é um personagem histórico, não é? E também foi muito poderoso, não foi? O que de errado poderia ocorrer?

- ... Xiu! Faz silêncio, ouvi alguma coisa naquele canto.

- Mas você não disse que estaríamos sozi...

- Xiu! Cale a boca, idiota!

Era pra estarmos só nós dois neste local secreto, mas a direita, a uns trezentos metros de distância, duas figuras esguias nos observavam. Uma delas carregava um trambolho imenso amarrado ao peito. Victor exasperou-se:

- Oh, Deus, oh, Deus... é o ... o .... Psicopata do acordeão!

Começamos a correr desesperadamente na direção oposta, pulando lápides, tropeçando em buracos, desembestados, aterrorizados. Atrás de nós o psicopata já começara a empurrar e puxar a gaita do acordeão, fazendo seus sons macabros que exigiam que ele movesse todo seu peito, ombros e braços de forma ritmada e metódica, tal qual faria uma serpente encantada pela música. O Psicopata era o horror dos horrores, um ser vil, a quem eu, idiotamente, havia proposto um desafio. Era óbvio que não poderíamos rivalizar seu poder maligno despreparados como estávamos. Mesmo assim, tornou-se igualmente claro que não conseguiríamos correr mais que ele, que treinou durante anos movimentar-se com uma acordeão pesado nos ombros e tinha, por isso, músculos como fios de aço.
Parei e virei, segurando a pá como um taco de baseball. Victor se protegeu atrás de mim. Estávamos morrendo de medo, mas tentei parecer perigoso. O Psicopata do acordeão se aproximou o suficiente para vermos seu sorriso maligno, emoldurado pelo cavanhaque que estampava orgulhoso em sua odiosa face . Durante muitos instantes, ninguém disse nada, até o psicopata tomar a iniciativa:

- Ô, pá. Era óbvio que encontrar-te-ia a ti aqui, gajo, eu queria apresentar-te um amigo. – o homicida louco respirou fundo – Puf, puf... cansaram-me em demasia com a corrida. Estavas a tentar escapar de mim, cabrão estúpido? E quem és tu que ajudas meu inimigo?

- Não se aproxime, maldito louco do acordeão! – gritei a plenos pulmões – Estou a avisar-te. Quer dizer: estou avisando!

- Não me aproximar-me-ei de ti, covarde. Mas eis meu amigo que trará sua destruição nas regras de nosso desafio!

Esgueirando-se por de trás de uma lápide surgiu um velho caolho, com roupas de nobre e chapéu de pena. Era Camões e portava armas, mas nenhum barão assinalado.

- Espere! Eu ainda não estou pronto! – gritei.

Não adiantou. Camões sacou a pistola e deu 5 tiros em minha direção. Quer dizer, mais ou menos. Os tiros nem passaram perto de mim, um deles, inclusive, eu acho que foi pra cima. Penso que aquilo era o melhor que ele conseguia fazer com um olho só. Sorte minha. Sei que Camões pareceu um pouco decepcionado com a situação, talvez até um pouco triste. Levou um tempo até ele se recompor, sacar sua espada e correr pra cima de mim. Me defendi com minha pá e começamos a nos degladiar ferozmente por entre as lápides brancas do cemitério.

- Faça alguma coisa, Victor! Preciso de ajuda! – gritei ao doutor.

- Estou fazendo, estou fazendo! – respondeu Victor, cavando uma sepultura próxima – Será perfeito!

Minha situação ficava tensa. O século XVI sem dúvida treinava melhor seus espadachins do que o atual, e a cada golpe de Camões eu me feria, cortava e sangrava mais e mais. Por fim, me vi desarmado no chão, com sua espada em minha garganta e um sorriso em sua face. Dada a certeza de sua vitória, Camões recitou:

“Quem será estrouto cá, que o campo arrasa
de mortos, com presença furibunda?
Grandes batalhas tem desbaratadas,
Que as águias nas bandeiras tem pintadas!”

Levantou a espada, ainda sorrindo, pronto para desferir o golpe derradeiro em meu pescoço. A lâmina fez um arco preciso no ar até chegar a um triz de minha jugular pulsante. Antes de atingir seu destino final – que também seria meu destino final – manchando o campo de vermelho, o golpe foi bloqueado:

“Se por mil anos, nesta furna escura,
Deixei dormir a minha maldição,
Hoje, velha e cansada da amargura,
Minha alma se abrirá como um vulcão.
E, em torrentes de cólera e loucura,
Sobre a tua cabeça ferverão
Mil anos de silêncio e de tortura,
Mil anos de agonia e solidão...”

Olavo Bilac empunhando portentosa espada calou o zunir da lâmina de Camões. A ira nos olhos do parnasiano misturava-se com contentamento por ter sido revivido. Atrás do príncipe dos poetas brasileiros Victor ria, certo de sua maestria em trazer de volta a vida os mortos. Camões, abalado, tentou trespassar Bilac com uma estocada firme e derradeira. Olavo, com precisão cirúrgica de um doutor em medicina e poesia desviou a ponta da espada do maldito português e num contragolpe fantástico rotacionou sua defesa abrindo a guarda de Camões enquanto decepava sua mão.
Não mais sorriam, nem o Psicopata do acordeão, nem o poeta português. A mesa havia virado e, vendo a derrota cada vez mais próxima, os vilões preparavam-se para correr. Camões apanhou sua mão caída e a balançou num gesto obsceno.

- Corram, patifes! Fujam, malditos portugueses! A vitória é nossa, seus calhordas! Peguem suas malditas caravelas e retornem a sua terra de mulheres bigodudas de uma vez! – gritei orgulhoso e confiante.

- Tu não ganhaste ainda, cabrão. Hoje deixo-te a ti com a vitória, mas retornarei! E nossas mulheres não são bigodudas, pá, elas fazem a barba com Mach-3, nem mais se percebe! – respondeu ressentido o Psicopata do acordeão.

Rimos os três, Victor, Olavo e eu. Apreciamos a visão da fuga desembestada dos dois maníacos, certos de que iriam voltar e convictos de que estaríamos preparados. Restava saber qual seria o tema do próximo desafio, mas isso era uma preocupação só para depois de uns copos de cerveja.

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