sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Fase 1: O esqueleto do mundo

Passei a tarde inteira seguindo as luzes escuras. Elas não quiseram se entregar fácil, mas sinto que finalmente as cansei suficientemente para apanhá-las. Eu sou o dono deste lugar - e de quase todo lugar... daqui. Mas não de lá, de onde vêm as luzes escuras, das artérias anêmicas do mundo. (sou dono do esqueleto do mundo)
Os abutres estão sobrevoando minha cabeça, procurando algo para devorar que não seja meu - não estão encontrando. Finalmente se atiram e se empanturram com a carcaça de um velho rei. Comem o resto de sua cara deixando apenas seus olhos - brilhantes como pedras rubi - saltando-lhe nas órbitas oculáres.
Reis não são meus. Os abutres sabem disso. Nunca tive qualquer poder de decisão sob aqueles de sangue azul. Mas domino todos aqueles que, como eu, *tem coisas mais importantes dentro de si do que um tipo sanguíneo.* %guardam dentro de si poderes muito além do sangue.% tem sangue ver...de - não, vermelho (vermelho é cor de sangue das pessoas-concreto) - amarelo.
&&&&&&Trimmm, trimmm.&&&&&
Toca o telefone. Sei, sem atender, que é o campeão da galáxia me chamando:
- Alô - digo de forma encriptada.
- Alô, Comandante - diz ele sem encriptar a mensagem. Atiradores escondidos poderiam usar essa brecha para tentar me assassinar. Ao longe vejo o reflexo da mira telescópica do inimigo. Deixo o campeão continuar, ele está com medo, sinto isso pelo tom de sua voz, e um comandante deve sempre inspirar seu soldado - Eu esqueci meu codinome. Qual é meu codinome, Comandante?
- Setenta e cinco.
- Setenta e cinco... - ele assente.
- Como está o tempo aí? - pergunto lembrando que a vista da galáxia é muito boa para a previsão do tempo - Parece que vai nevar - eu mesmo respondo - Está ficando frio e minhas feridas doem. - digo olhando para a enorme casca amarela em minha perna - Não tenho onde dormir.
Largo o telefone no chão. Ele está velho, mudo e quebrado há tempo demais, assim como eu.
Procuro um bom lugar para deitar aqui, no esqueleto do mundo, que é minha casa, minha morada e a única coisa que irá sobrar quando o mundo perecer.
A única coisa que resta de todos nós é o esqueleto.

Fase 2: Na terra das Luzes Escuras

O sol: ele se multiplica. Batendo nos flocos, formando infinitas linhas de luz, sendo jogado de um lado para o outro - quicando incansável pelos muitos milhões de fragmentos de neve que parecem nascer, e nascer, e nascer das nuvens. Não importa o quanto o homem evolua, a neve sempre prevalece. Se neva aqui, neva ali. Está nevando aqui e ali também. E é muito bonito saber que está nevando em cima de mim da mesma forma que neva lá. É a mesma neve. Aqui e lá. Neve aqui e lá.
- Um trocado, por favor.
Um homem que passa, mesmo rápido, está na mesma neve que eu. Mesmo que ele não queira, mesmo que seja alguém completamente diferente de mim, mesmo que enxergue a neve de maneira contrária a minha - mesmo que a ignore - ainda assim é a mesma neve que cai sobre nós. Nesse mundo vê quem quer, e eu me dei olhos para ver. Se estou aqui e ele lá, entendo perfeitamente que somos diferentes, mas é a mesma neve que cai sobre nós.
- Um trocado, por favor.
Isso não é mágico?

Fase 3: Uma pausa da caçada

Deixei as luzes escuras me despistarem no meio da tarde. Andei em direção ao núcleo da fama e da fome, numa pausa da caçada. Ordens cortam o ar e atravessam meus ouvidos: "Tire o chapéu". Tiro. "Limpe as mãos". Limpo. Ninguém me reconhece pelo que sou - o dono do esqueleto do mundo. Minhas palavras passam esquecidas entre as vozes do ambiente:
- Vai querer o que? - pergunta o cozinheiro com bochechas vermelhas e cara de babaca.
- Uma refeição completa e um morte lenta. - respondo conformado.
Ele joga qualquer coisa no meu prato e olha para o próximo da fila como se eu, obrigatoriamente, tivesse que me dar por satisfeito. Nada do morte lenta pra mim também... palavras ao vento.
Cavo meu lugar em uma mesa, esperando que alguém não caia da ponta do banco conforme sento. Cercado, me recolho a solidão contemplativa de quem tem fome e come. As véspera de terminar o almoço, ouço as conversas a minha volta. São essas mulheres que já se habituaram a rotina da miséria e usam essas imundas cantinas como locais de sociabilização:
- É um pobrema, menina. O professô diz que ele num qué sabê de istuda. Só fica venô TV o dia inteiro. Num istuda nada, menina, tô te dizenô...
O muleque de quem ela fala está sentado ao lado dela, brincando com os restos no prato. Finge sinceramente que não é com ele como fazem todas as crianças novas. Deve ter, no máximo, uns seis anos. Às vezes esses meninos vêem além das sombras do mundo anêmico e encontram as verdades pulsantes da realidade. Puxo pelos dedos minha segunda pele e coloco na frente dele. "Essa é minha garra de batalha, está vendo? É com ela que combato o frio como um igual e é com ela que um dia irei agarrar as luzes escuras. Isso não é uma luva, não importa o que digam. É uma garra de batalha." - mentalizo com minhas forças psíquicas. Ele vê a luva deslumbrado e a explora como se tivesse descoberto algo mágico. Eu sorrio.
- Larga disso, menino! É a luva do moço. Dá...
- Pode deixar com ele, senhora. É presente.
Ela olha com nojo e algum receio de me irritar. Não diz mais nada, mas sinto que é necessário frisar um ponto:
- Criança é assim. - digo tentando fazê-la entender - Descobre como são fantásticas as coisas de todo dia o tempo todo. A gente que se esquece de perceber isso.
- Isso o que?
- Como são fantásticas as coisas.
- Ahmmm...
Me levanto e saio. Coloco as mãos no bolso antes de entrar na zona de combate novamente - agora preciso de uma nova garra. A mulher não entendeu o que eu dizia, mas a noite, antes de dormir ela vai ligar a TV em um Reality Show qualquer e se maravilhar com pessoas fazendo o que fazemos todo dia, assim como o menino com o presente que dei. Antes de sair ainda dá tempo de ouvir ao fundo:
- Me dá isso, menino, essa luva suja!
- Não, isso é minha garra de batalha!
Sorrio e pessoas entrando nesta espelunca olham para mim como se eu estivesse louco. Mas eu sei melhor que o professor: o garoto está no caminho certo.

Fase 4: O meio do caminho

Ando desgraçadas horas pela estrada que leva ao esqueleto do mundo. A viagem é muito perigosa: a estrada é sempre a parte mais perigosa. Se deixarmos, nossos pés podem nos levar até muito depois de onde nós queremos estar, longe demais das luzes escuras. Mas conheço uma forma de evitar me perder aonde quer que eu vá: O importante é saber se localizar e sacar se você está aonde quer ou no meio do caminho. Se estiver no meio do caminho, você deve andar mais; se estiver aonde você quer, então você deve parar. Não importa quão longe é meu destino, nem quantas bifurcações nos separam, eu jamais me perdi.
As mulheres, meninos e os trocados. Os homens, as bestas e as luzes escuras. Algo se perde, algo se ganha. Todos dias se passam assim, e as noites se resumem a vagar e vagar até alcançar o esqueleto do mundo. As pessoas anêmicas me encaram como se eu não tivesse consciência do meu destino, surpresas em saber que ainda acho meus dias curtos demais mesmo tendo que caminhar tanto. E eu de fato não tenho consciência do meu destino, por que a cada dia descubro algo novo, e a cada dia minha caminhada é diferente. Quem se esquece disso, foge para uma camada menos pulsante do mundo, tornando seu corpo uma carcaça vazia, cada vez menos viva.
A mão dormente se curva na forma de soco e os dedos esquentam a si mesmos dentro do bolso do casaco. No horizonte desponta o esqueleto do mundo, imponente como deve ser, grandioso como nada mais.

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